Quem pode suportar essa nossa realidade?
Quem com algum grau de consciência crítica passa incólume pelos noticiários, pelos atos repugnantes do bolsonarismo? Talvez por isso tenhamos nos constituído numa torcida pela democracia, lá, em qualquer lugar onde realmente haja disputa, onde a direita não se mostre triunfante em todo seu esplendor. Torcemos pela eleição de Alberto Fernández, presidente da Argentina, torcemos pelos socialistas na Espanha, acompanhamos debates presidenciais nos EUA, esperando que pelo menos, o candidato capitalista inimigo do nosso fascista, não seja reeleito. E, agora, parece que triunfamos com as eleições na Bolívia e com o resultado do plebiscito no Chile.
Claro que há muita solidariedade, mas psicanaliticamente, revela-se nossa esperança de sermos salvos, afinal são tantos os pontos que unem nossas histórias.
O Chile teve uma das mais cruéis ditaduras das Américas, crivada de violência, mortes, torturas, crueldade. Além dessa marca rasgada na carne, tiraram do povo um governo social, não propriamente socialista porque instituído dentro de um sistema capitalista, mas que tinha o intento de enfrentar as desigualdades.
Allende construía, cercado dos melhores quadros intelectuais e políticos do país, um programa de aprofundamento da reforma agrária, de nacionalização das áreas chaves da economia, nacionalização da mineração de cobre, aumento da remuneração dos trabalhadores, reativação econômica aliada à redistribuição de riquezas.
Quando o governo dos Estados Unidos entendeu que seus interesses e dos seus financiadores estavam ameaçados, primeiramente, tentou impedir que o candidato do Partido Socialista ganhasse as eleições, intervindo por meio da CIA e outros agentes. Fracassados, empenharam-se mais em destruí-lo. Cerco econômico, embrago ao cobre chileno, greve de caminhoneiros (vejam só), boicote da classe média cristã, críticas da direita, das esquerdas, dos militares, todos, em alguma medida, porta-vozes do golpe que o derrubou e o suicidou.
O Chile foi silenciado, seu povo engoliu o choro. O que era imperfeito tornou-se miragem; o que era desprezível, assumiu. Mortos, desaparecidos, não se sabe quantos. 3.000? 4.000? 200.000 desterrados.
Anos se seguiram de pátria madrasta, castigando seus cidadãos e cidadãs com a submissão ao grande capital e às políticas subjugadoras norte-americanas. O Chile se tornou então campo de experiências das teorias de Milton Friedman, com redução em 20% do gasto público (leia-se de atendimento à população); aumento de imposto; fim dos empréstimos e financiamento de moradias; privatização da previdência.
Então, em 1980, sangrou desse cancro a nova constituição chilena, de autoria da junta militar e sua entourage, firmada pelo assassino Pinochet. Nada de garantias fundamentais, sociais ou políticas, apenas da manutenção de poder dos militares e da política econômica vigente.
E foi respeitada. Diante de um desemprego de 20% da população, constitucionalmente, a resposta foi o estado de sítio e mais repressão.
Outra vez, como de resto, calaram a oposição.
O tempo passou e não foi sereno, mas cheio de enfrentamentos, de soluços democráticos e aprofundamento da crise, até que nesse domingo, 25 de outubro de 2020, o povo reouve sua bandeira de uma só estrela e foi votar – plebiscito sim – querem outra constituição, querem garantias sociais, democráticas, querem falar, manifestar-se, se contrapor sem ter que arriscar a vida. Almejam uma sociedade justa, uma nação independente e soberana.
Vitória do povo. A primeira. Muitas outras etapas se seguirão.
E nós? Estaremos aqui companheiros e companheiras, na torcida pela sua vitória e de que os Andes permitam que soprem sobre nós os mesmos ventos de indignação.


